Hipertexto estruturado

Resumo: O hipertexto em relação ao texto linear possui problemas de compreensão apenas quando mal estruturado. Um hipertexto bem estruturado possui “memória própria”, é auto-explicativo e orienta o leitor independente do tempo ou ponto de acesso/leitura.

Palavras-chave: Hipertexto, hipermídia, inteligibilidade, estrutura.

No texto “Hypertext and art of memory”, WONG e STORKENSON (1997) discutem, entre outros assuntos, a questão da compreensão da informação em estruturas de hipertexto.

Os autores discorrem sobre definições como:

Texto linear: “estrutura dentro de um único processo de apresentação e leitura” que “preserva uma memória de si mesmo”, ou seja, constrói uma apresentação auto-explicativa de si mesmo no decorrer do tempo, ou fornece uma orientação do seu todo não importando o ponto em que é acessado/lido.

Hipertexto seria uma “ligação não-hierárquica de textos navegados pelo usuário. (…) “

Multimídia é definida como “texto, imagem, som, movimento e seqüência ou animação (…) combinados dentro de uma única apresentação (…). Pode incluir interação (…) de acordo com comandos do usuário.”

Hipermídia “é a combinação de apresentação multimídia e navegação em hipertexto”. Seu desafio seria a seleção da mídia e ferramentas corretas para diferentes aspectos da comunicação a fim de preencher as lacunas de orientação existentes no hipertexto.

O texto – de 1997 - faz comparações entre texto linear, hipertexto, multimídia e hipermídia para justificar esse pensamento, ao caracterizar o hipertexto:

“(…) Freqüentemente, mas não sempre, muitos textos têm apenas um ou dois pontos de entrada, embora possam ser acessados de qualquer ponto. Uma vez o hipertexto atingindo um nível de complexidade elevado, é improvável que o leitor encontre todo o texto, e diferentes interpretações irão quase invariavelmente resultar dos diferentes tipos de leitura. Uma vez que a ordem da leitura não pode ser presumida, hipertextos tem grande dificuldade de apresentar memória de si próprios, e dessa forma, construir uma apresentação através do tempo ou fornecer uma orientação do todo.”

Complementando os autores, meu ponto de vista é que a hipermídia – ou o hipertexto – só tem problemas de compreensão – ou inteligibilidade - em relação ao “texto linear” (tradicional) quando mal estruturado. Vejamos problemas de compreensão no contexto do hipertexto e multimídia – e suas possíveis soluções – a fim de podermos compreender melhor essas questões na hipermídia.

Hipertexto em frames/quadros

Muito se fala sobre a má usabilidade dos frames (ou quadros) quando colocados no ambiente de hipertexto. De fato, nos framesets – ou conjunto de quadros/páginas – um dos frames é a barra de navegação (ou tópicos do texto) e os demais são os textos destes tópicos.

Figura 1: Texto estruturado (reunido) em frames (ou quadros): do lado esquerdo a página com os tópicos, à direita páginas com o conteúdo, em separado.

Caso o usuário faça uma pesquisa num buscador e acesse um texto fora do contexto dos frames (sem os tópicos ou navegação entre as páginas) o entendimento do texto fica prejudicado.

Figura 2: Navegação em frames (ou quadros) – o internauta que acessa uma página não possui navegação para as demais.

A solução para esse problema está em colocar uma programação que force as páginas fragmentadas a ocorrerem sempre no conjunto de frames (frameset), exibindo a barra de navegação, que por sua vez estrutura e dá acesso ao texto completo.

Figura 3: Programação (script) força a exibição do conjunto de frames (frameset).

Hipertexto em navegação linear

Num exemplo semelhante, dentro de uma navegação linear (onde uma página leva à outra imediatamente posterior ou anterior) o usuário que acessa uma página aleatoriamente é obrigado a fazer a navegação completa, antes de usar o histórico do navegador, p.ex.; fica assim sem possibilidade de pular páginas previamente para acelerar a navegação. Se o texto estiver fragmentado em um número considerável de páginas, a compreensão do conjunto é comprometida – ou retardada - na mesma proporção.

Figura 4: Navegação linear – o internauta só percebe a estrutura se fizer toda a navegação.

A solução para essa situação está em incluir uma barra de navegação em todos os fragmentos de texto. Como existem diversas formas e variantes da implementação desta barra[1], esse tipo de estruturação será, na maioria das vezes, suficiente para garantir a compreensão do texto, independente da forma em que for acessado.

Figura 5: Barra de navegação em todas as páginas – o internauta percebe a estrutura do texto pela barra, que funciona como um índice ou sumário.

Outras estruturas de hipertexto

Mas como a informação (além do o hipertexto) a cada dia se torna mais complexa, novos recursos metainformacionais - dos RSS aos microformatos[2] - se fazem necessários, assim como outras estruturas de hipertexto como os BreadCrumbs e TrackBacks.

Figura 6: BreadCrumbs Trails1, uma estrutura de navegação profunda; navegação normalmente linear, mas que indica ao internauta o caminho percorrido (ou existente) até ali.

Figuras 7 e 8: TrackBack (TB) ou Trilha Reversa – recurso utilizado em blogs que visa ajudar a estruturação de hipertexto; aqui, links são gerados na página de destino por meio de um link reverso.

O TB funciona da seguinte forma: sempre que se faz um link para um “texto X” dentro de um “corpo fechado”[3] ao final do “texto X” é criada automaticamente tabela de todos os links que apontam para ele. Como é um caminho de mão dupla, isso faz com que o leitor do “texto X” acesse todos os textos relacionados a ele, ampliando base de informação sobre o assunto tratado. O TB depende da existência de “corpos fechados”; assim sendo, quando o TB não é possível (quando o link para o “texto X” parte de uma página localizada em um “corpo aberto”) os comentários dos leitores (a rede social da blogosfera ou da internet) acabam cumprindo essa função de apontar os textos relacionados, através de links “comuns”.

Não pretendo estender a discussão da “navegação inteligente” aos sistemas de busca (que por si só possuem suas próprias taxonomias e gêneros), pois meu escopo é tentar demonstrar que para cada problema de navegação hipertextual existem soluções técnicas (programação) ou de projeto (barra de navegação) que se não resolvem por completo minimizam a níveis mais do que aceitáveis problemas de compreensão em hipertexto.

No caso da multimídia a melhor compreensão se dá na escolha da mídia mais adequada (texto, áudio, vídeo, imagem, animação, vídeo) para determinado assunto.

Já foi dito que a qualidade da retenção de informação pelo ser humano é, strictu sensu, determinada pelo tipo de inteligência do receptor (visual, lingüística, cinética, auditiva, etc). O mapeamento desta característica do receptor da informação - o estilo de aprendizagem - é a modelagem do usuário [4], que por sua vez é uma técnica utilizada pela hipermídia adaptativa[5]. Assim sendo podemos concluir que a multimídia - reunião de várias mídias – teria maior efetividade no incremento da apreensão da informação se aplicada dentro de uma hipermídia adaptativa ou dando a chance do usuário fazer essa adaptação ao escolher o formato de conteúdo que mais lhe agrada.

Latu sensu se assume que o ser humano retém melhor informações vivenciais e visuais, e depois em linguagem escrita ou oral. Se o ambiente do conhecimento for virtual – aprendizado de software, por exemplo - a vivência se dá ao reproduzir o ambiente virtual. Se a informação for visual, a informação pode ser mais bem formatada em vídeo, animação ou texto. Se for baseada em oralidade, o registro em áudio pode ser uma forma de reproduzir/fixar essa informação. Novamente remetemos à multimídia como fator contribuinte da compreensão em uma hipermídia, mas não necessariamente de um hipertexto, que é mais calcado na ordenação/acesso da informação do que na diversidade das mídias ou modelo cognitivo do internauta.

O texto que guiou essa discussão é datado de 1997, possui11 anos, época onde não existiam recursos como TrackBacks e os projetos de hiper/texto/midia não eram tão sofisticados ou complexos como hoje. Mesmo assim acredito que as soluções para problemas de compreensão em hipertexto podem partir da conceituação da navegação (p.ex, incluir uma barra de navegação em todas as páginas) ou do desenvolvimento de soluções específicas (programação, no caso dos frames), mas sempre guiada por um pensamento projetual, que pressupõe pesquisa, organização e sistematização do problema. Desenvolver soluções de hipertexto sem um projeto como fio condutor pode levar ao desenvolvimento de soluções de “bad engeneering[6]”, não-reutilizáveis, ou redundantes.

Figura 8: Exemplo de hipertexto sem projeto ou com estruturação limitada. Do ponto de vista do design, um link (dentro de uma navegação linear) que exibe um alerta ao internauta informando de que chegou ao fim - e que não pode avançar/recuar mais – iria contra as melhores práticas de navegação em hipertexto ou de adaptatibilidade (desabilitar ou ocultar o link, por exemplo).
Do ponto de vista da programação, não utilizar código externo à página, p.ex., sinaliza que esta solução não será utilizada em nenhuma outra página ou que haverá repetição de código em outro ponto deste hipertexto.

Bibliografia:

WONG ,Janine; STORKENSON, Peter. Hypertext and art of memory. Internet: http://trex.id.iit.edu/visiblelanguage/Feature_Articles/ArtofMemory/ArtofMemory.html , 1997, acessado em 12/2007.

BRUSILOVSKY, Peter; User Modeling and User-Adapted Interaction, Holanda, Kluwer Academic Publishers, 2001


Notas:

[1]Além dos estados do link (página ativa, visitada e não-visitada) há os BreadCrumb Trails (trilhas de migalha de pão) ou BCT que se subdividem em BCT de localização, caminho e atributo. Cada uma dessas categorias tem a função de orientar o internauta durante a navegação dentro de um hipertexto e cumprem razoavelmente bem esse papel como os sinais de trânsito (se o leitor estiver informado sobre essas regras).

[2] RSS – Rich Site Summary ou Really Simple Sindication – que pode ser traduzido livremente como sumário de sites é um recurso (baseado na linguagem de marcação XML) que visa facilitar a leitura de notícias (seja ela em texto, áudio ou vídeo) oferecendo ao internauta um sumário delas no exato momento em que são publicadas na web. Os microformatos são um dialeto do XML, que permite acrescentar informações dentro das tags HTML com a finalidade de oferecer meta-informações ao leitor (da localização geográfica do autor do texto até informações profissionais públicas, como o email ou telefone de contato).

[3] “Corpos fechados” segundo BRUSILOVSKI (2001) estão relacionados com sistemas de recuperação de informação que fazem “busca dentro de um site”; neste texto uso o termo para me referir a um conjunto de páginas relacionadas dentro de um blog, site de blogs ou blogs que compartilhem uma mesma estrutura de TrackBacks ou links reversos.

[4] Modelagem do usuário, segundo BRUSILOVSKI (2001) é um conjunto de “metas/tarefas, conhecimento, bastidores, experiência de hiperespaço, preferências, interesses e características dos usuários” a fim de definir o tipo de adaptação do conteúdo a ser gerado para o internauta.

[5] Hipermídia adaptativa é a reunião de hipertexto, multimídia e sistemas adaptativos. O objetivo da Hipermídia é reunir vários nós de informação não-linear (hipertexto) e/ou várias mídias para acelerar a velocidade de navegação, aprendizado e compreensão do usuário. Já os Sistemas Adaptativos tem como finalidade alterar sua interface conforme vão interagindo com o usuário, com o mesmo propósito.

[6] Prática que se utiliza do que é considerado um problema como solução para outro; p.ex., desabilitar o botão de fechar de uma janela pop-up para evitar que esta seja fechada antes da exibição de seu conteúdo integral.

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[...] uma memória de sí ao longo do tempo). O texto me fez desenvolver um outro texto, que publiquei no site Catabits. Posto aqui para dividir com vocês, e fazer uma pré-crítica antes de encamnhá-lo a uma [...]

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