19 de dezembro de 2008

Contexto e conteúdo


Uma conhecida minha, comentando sobre um curso teórico (curto, de 4 aulas) que está fazendo sobre interfaces para web: o curso - curto - começou com a professora discorrendo sobre a história da web, o que aborreceu os participantes, que eram de áreas afins (mídia impressa, design, profissionais liberais) e queriam informações para aplicar em seus projetos.


Aqui cabe um paralelo com outra discussão sobre como deveria ser um apresentação e a aplicação dessa discussão numa palestra técnica.

A discussão, em resumo, dizia que as apresentações devem ser objetivas, e o "contar a história do assunto" deve ser deixado para o final. Como num CD de música, a melhor parte deve ser exposta no início e a de menor interesse (bastidores do assunto) dever ser deixada para o final.

A palestra técnica que assistí foi estruturada assim: começou mostrando quais empresas no mundo utilizam aquela tecnologia, exemplos de jogos famosos que a usam, e, meio que contando a história de trás para frente, no meio passou o contar como a tecnologia foi - e está sendo - desenvolvida. No final, foi contado como a tecnologia surgiu.

Bem, no sentido linear (acadêmico ou livresco) da palavra a palestra está mal estruturada ou foi estruturada ao contrário. Porém, no momento atual, onde as pessoas tem necessidade de se informar rapidamente (as cobranças são rápidas!) fazer uma palestra "de trás para frente" faz sentido. Como de fato fez, a palestra foi aplaudida ao final.

Queria colocar aqui um ponto de vista complementar: palestra é diferente de curso, e cursos podem ser teóricos ou práticos, de formação técnica ou superior. Até num curso teórico o historicismo (muito criticado hoje em dia até em monografias que são históricas, pois esse tipo de abordagem caiu no lugar-comum) tem de ser medido para não fugir do tema.

Resumindo o conteúdo deve ser adequado ao contexto. E o primeiro deve fugir ao lugar-comum, para que possa agradar ao segundo. E como fazer isso? Bem, tenho em algumas propostas que não pretendem esgotar o assunto mas sugerir idéias de quem deseja fazer a apresentação de algum conteúdo e não tem uma guideline (ou diretriz) a seguir:
  • Utilize um modelo de layout que seja visualmente atraente. Todo mundo faz slides que são bem lidos apenas de perto (com letras miúdas) mas um bom layout faz até com que as pessoas esqueçam que o texto é (pouco) ilegível.
Pegando carona nessa idéia, se o slide tiver leitura mediana:
  • Parta do pressuposto de que você irá explicar a apresentação ao público e não lê-la. O texto é complementar ao que você vai explicar.
Mesmo assim:
  • Os slides devem ser auto-explicativos, pois muitas pessoas não poderão ir à sua palestra mas poderão querer ler um resumo da ópera.
  • Abrir espaço para perguntas dos espectadores pode ser uma forma de quebrar a linearidade de uma palestra.
  • Usar multimídia (internet, vídeos, animações, sites na web) para ilustrar sua apresentação - ou fazer comentários sobre ela - pode ser um recurso para contextualizar o conhecimento. Em meu mestrado o laptop ligado à web é utilizado largamente para ilustrar as aulas.
  • Boas ilustrações - boas fotos, tabelas, gráficos - podem ajudar a compreensão de um assunto essencialmente técnico. se puder ilustrar todas as telas de sua apresentação - criando um segundo nível de leitura, como os boxes e olhos no texto jornalístico - melhor ainda.
Mais sugestões de layout para seu slide:
  • o assunto tratado deve aparecer em todos os slides para contextualizar o tema, que pode ser longo. O subtítulo dos tópicos também devem aparecer em todas as telas que tratam deste tópico pelo mesmo motivo.
P.ex.: se o assunto for "Design dos anos 80", ele deve aparecer no topo de todos os slides; se o subtópico for "Brasil", este deve aparacer abaixo de "Design anos 80", mas apenas nas telas que tratem deste assunto.

Para quem gosta de exibir um sumário de tópicos em todos os slides, destaque o tópico que está sendo exibido (slide não é instalação de software, que exibe as etapas percorridas com uma cor e as que restam em outra!).
  • a numeração dos slides (início/final - p.ex., 1/20) deve aparecer em todos os slides para que a platéia tenha uma espectativa da duração da presentação.
  • a última tela deve ter além do famoso "obrigado", seu contato (tel, cel, email, ou site) para que as pessoas possam localizá-lo mais facilmente, sem recorrer a uma garimpagem no Google.
  • use se possível imagens .GIF ou vetoriais (.WMF, .EMF, .AI); a primeira tem número limitado de cores (256) e as demais são pequenas, comparativamente a imagens de qualidade fotográfica (.JPG, .TIF).
Mas nada disso dispensa conhecer seu público previamente. No caso de um curso, uma conversa prévia com os espectadores é fácil, no caso de uma palestra a situação é mais difícil. Fazer pesquisas sobre o estado-da-arte do assunto é aconselhado, para não ter a surpresa de falar de um assunto já conhecido da platéia.

Conhecer assuntos paralelos ou concorrentes também é útil nesse sentido. No exemplo dado "Design dos anos 80", pesquisar escolas de design locais (em vez do "International design") ou arte popular podem ser complementos úteis.

Tudo que escreví são tentativas de fugir do óbvio ou do senso comum; não é receita de sucesso, mas um pequeno caminho das pedras para ajudá-lo a fazer algo mais do que um Powerpoint...

4 comentários neste post

Muito bom Wally! Excelente guia para apresentações!

"... Uma conhecida minha comentando sobre um curso teórico (curto, de 4 aulas) que está fazendo sobre interfaces para web: o curso – curto – começou com a professora discorrendo sobre a história da web, o que aborreceu os participantes, que eram de áreas afins (mídia impressa, design, profissionais liberais) e queriam informações para aplicar em seus projetos..."

Então acho que sou meio do contra , pois sou simplesmente vidrado na história e na origem “das coisas”, principalmente da minha profissão.

Sempre achei estranho e até deprimente que um profissional de informática não saiba em que data o primeiro computador foi lançado e na hora de falar de nomes importantes na nossa área só lembra-se de Bill Gates, mas nem mesmo saber o que ele fez!

Um médico ou um fisico, por exemplo, profissionais dos respeitados pela sociedade têm que estudar e conhecer a fundo a história das suas profissões para serem bem colocados e reconhecidos como grandes profissionais.

Já profissionais de informática acabam renegados a um segundo plano, são apenas complementos nas empresas, talvez por não levarem a sério o histórico e a origem das coisas, acabam como profissionais “incompletos” e “desumanizados”. São reconhecidos como “bons” profissionais porque sabem instalar Windows…

Tudo bem que em uma palestra técnica, a coisa não se aplica, mas na minha visão, em um curso, uma formação, a coisa muda de figura. Quanto mais extenso, profissionalizante e aprofundado for o curso, maior a seriedade e obrigatoriedade de demonstrar ao “futuro profissional” o “por que histórico” das coisas. Isso também serve para “humanizar” mais a nossa profissão e o profissional.

Senão, como vemos hoje, acabamos com um mercado cheio de “moderninhos” que não sabem sequer explicar a origem de um sistema operacional ou de uma tecnologia web que seja…

E acho que não sou só eu que penso assim heim? Tenho acompanhado diversos concursos e processos de seleção onde a informática que antes era apenas um complemento, passou a ser eliminatória, servindo como um filtro de profissionais.

Antes era só nas redações, mas agora até as questões abordadas estão, cada vez mais, incluindo tópicos históricos, pois se sabe que poucos candidatos dominam o tema…

Essa talvez esteja sendo, neste momento, uma das falhas no ensino de tecnologia. Os estudantes “só querem prática”, e estamos vendo um mercado cada vez mais saturado de “profissionais medianos” que não conseguem colocação e empresas desesperadas, cheias de vagas ociosas para “especialistas”.

E lá vai mais um exemplo prático: já se perguntaram por que o pessoal “fera” em Linux têm se saído bem no mercado? Pergunte a um deles quem é “Linus Tovalds”, “Richard Stallman” ou “Patrick Volkerding”…

Concordo, saber o porquê das coisas, de onde elas vieram e para onde vão é um diferencial no mercado. Mas isso vai contra o interesse das pessoas numa sociedade onde as coisas mudam muito depressa (uma sociedade baseada no consumo, onde tudo tem de ser descartável, até as nossas relaçoes sociais e pessoais [!] para gerar lucro rápido [!!] e contínuo) e onde os meios de comunicação, informação e entretenimento são igualmente rápidos. Estamos numa época onde o “FAST-FOOD” (fazer rápido) se contrapõe ao “SLOW-FOOD” (fazer bem).

As pessoas querem conhecimento igual ao bigmac (rápido e agradável), ou seja, o saber hoje é um tipo de entretenimento, tem de ser rápido como uma vinheta da MTV…

Nesse sentido, o “diferencial” do curso deve ser deixado para o final ou ser ministrado em doses homeopáticas (procuro fazer isso em aulas regulares).
Nas palestras realmente funciona mais deixar a parte histórica para o final, devido ao imediatismo da nova geração (e do mercado de trabalho) que cobra resultados práticos e rápidos. Se esses resultados tem curta duração isso não é mais percebido, pois hoje em dia tudo dura pouco.

A obsolescência programada deu lugar à obsolescência percebida – as coisas são descartadas mesmo funcionando, pois se criou a cultura do “obsoloeto por estar fora de moda” (vide o celular).

É a pura realidade wallyvianna! É uma pena mesmo!!!

Acho que é por isso que o sistema “S” está com 75% de vagas ociosas para docentes de hardware e redes, 50% para webdesign, 85% para inglês técnico, 95% para Linux e não há quem seja capaz de suprir essas necessidades.

Em hardware temos um excesso de “trocadores de placa” que se acham grandes profissionais, mas poucos (ou nenhum) passam na parte teórica de uma avaliação que nem é lá grandes coisas assim…

Quem “se ferra” sou eu como coordenador! Hahahahaha!

Tenho que lidar com toda uma geração de jovens reclamando que “- tá difícil arrumar emprego!”, mas fica o dia todo “miguxando” no Orkut, vendo Big Boster ou fazendo lambança na rua!

Mas há espectativas, como diria um velho professor, filósofo, poeta e doido e amigo meu:

“- A China agora é uma super potência econômica por causa da mão de obra desqualificada e semi-escravisada, comandada por uma pequena elite dominante, letrada e esperta porque se aproveitou que os americanos começaram a emburrecer. Quem sabe isso nos dá esperança de o Brasil se tornar uma outra China?”

Abraços…

Rapaz, você tocou num assunto que dá OUTRO post!

o sucesso da China, as vagas ociosas de docentes no sistema “S”, TV aberta com programas da Luciana Jumentez, digo, Gimenez, Pânico e BBB… Tudo tem razão de ser.

Agora, o Brasil virar outra China, espero que não – esse modelo de desenvolvimento prefiro deixar passar…

Postar um comentário

Atenção comentarista!
  • Todos os comentários serão rigidamente moderados;
  • Identifique-se! Comentários anônimos não são recomendados;
  • Comentários com três ou mais links serão removidos;
  • Comentários escritos em miguxês ou excesso de gírias serão removidos;
  • Comentários escritos com predominância de maiúsculas serão removidos;
  • Por favor, prove que você é coerente, educado e bem informado: conheça o restante do site, saiba quem somos, sobre o que, para quem e como escrevemos antes de comentar futilidades;
  • Respeite as opiniões dos autores e dos outros comentaristas. Seja breve e sem ofensas;
  • Escreva comentários relevantes e que contribuam de alguma forma para o bem da humanidade;
  • Não seja um inútil social. Lembre-se que o mundo não gira ao seu redor.