9 de março de 2010

Reflexões 12

Sempre imaginei que, uma vez percebida a possibilidade de um problema, devo me mobilizar para evitá-lo. Como diria o crítico de arte Klaus Honef, a possibilidade de haver uma tragédia já configura a tragédia; o sinistro não precisa acontecer para ser um sinistro.

Daí imaginei isto posto em prática:

O responsável percebe o possível problema e diz ao subordinado: faça isto e aquilo. O funcionário questiona o pedido e o responsável argumenta que o fato pode dar problema, portanto vamos tomar medidas preventivas. O funcionário nada faz, e quando cobrado diz que “está tudo feito”. Como ninguém está reclamando, não há como medir o resultado das ações preventivas, a não ser que sejam ações “práticas” e visíveis a qualquer um.

E mesmo que sejam ações “visíveis”, elas demandam liberação de dinheiro ou transferência de recursos de uma área para outra. Imagine a situação do responsável junto a sociedade: os representantes da sociedade – deputados, vereadores, senadores, tribunais de contas – vão dizer “mas não há nada acontecendo. Isso não é prioridade. Parece até caso de favorecimento”.

Por isso o ser humano só se move quando o mal já está feito. Fatos concretos demandam ações concretas, sem questionamentos. Isto explica tragédias como a do temporal de Angra…


Um ex-jogador, hoje político deu uma explicação muito esclarecedora. Criar um projeto de lei demanda tempo para conscientizar a população em geral e os colegas políticos da sua importância. E isso pode demandar até 5 anos entre o projeto e a criação de uma lei.

Ou seja, poítica além de jogo de interesses é um jogo social.

O governo somos nós quando elegemos representantes que sabem comunicar as necessidades da população junto aos políticos e sociedade, efetivando leis.


Não concordo com o modelo de internet sem fio, no qual você fica preso 12 meses a um contrato. A internet sem fio “individual” deveria existir no mesmo modelo da telefonia por cartão (pré-pago), em que você usa proporcional ao que paga (ou necessita).


Toda transição deve ser gradual, não é do ser humano digerir mudanças repentinas ou em curto espaço de tempo sem alguma insatisfação.

Num documentário dos 10 anos da REDE TV! um de seus diretores comentou como fez a transição para a mídia digital em sua empresa: anunciou numa sexta-feira que na segunda-feira as mídias analógicas não seriam mais usadas. Na segunda os funcionários reclamaram: “não sabemos usar essas coisas, não vai ter jornal hoje, então”, o que respondeu o dono “então não vai ter jornal hoje, amanhã, nem depois” (leia-se: nem o emprego do reclamante também, de tabela). Moral da história: o Jornal televisivo ficou pronto, mas a custa de algum estresse e insatisfação dos funcionários (!).

Bill Gates fez uma genial migração do D.O.S. (sistema operacional em modo texto) para o Windows (S.O. em modo visual ou gráfico).

Fernando Henrique fez a troca de moeda e estabilização do processo inflacionário com a famosa URV (Unidade Real de Valor) que nada mais foi que dar tempo à população de se adaptar à nova moeda/realidade monetária. Coisa que Fernando Collor e Zélia Cardoso não conseguiram fazer. Mas alguém tem de errar para se poder acertar mais adiante.


Colega meu, pessoa inteligentíssima, comentando que os seus estagiários de hoje não tem mais a “motivação de aprender a profissão” que ele tinha (ou de outrora). Eu compreendo isso como mudança de paradigma: a geração atual se motiva com imagem e tecnologia, não com conhecimento da atividade fim – a profissão.

Como diria Pierre Lévy, a tecnologia muda a nossa relação com o mundo de maneira irreversível.
Iss não quer dizer que o estagiário nunca irá se motivar a aprender a profissão – quando ele tiver contas a pagar no final do mês a motivação irá aparecer naturalmente – mas isso é sinal de que devemos estar atentos ao modo com que ensinamos a profissão aos mais novos, sob pena de estarmos usando uma linguagem antiga para falar de assuntos atuais.


Discordo quando vejo a sociedade, em nome do progresso, ficar refém da tecnologia. O mundo tem de poder continuar a existir na falta temporária da tecnologia. Na fila do banco onde tenho conta, os funcionários pararam de atender pois o letreiro digital que anuncia o número das senhas de atendimento pifou. Esse contra-senso vale para a energia elétrica, transportes, e tudo mais que dependa de tecnologia.

Felizmente o ser humano se adapta rápido a mudanças de paradigma quando não tem outras alternativas.

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