9 de setembro de 2009

Reflexões 9

Muitos pensadores, filósofos e sociólogos discorrem sobre as mudanças do século XXI. Os conceitos de hipermodernidade (uma radicalização de valores "modernos") em contraponto ao conceito de "pós-modernidade" (valorização de conceitos clássicos, em oposição ao "moderno"); a idéia de "valores líquidos" que ilustra a rapidez com que os valores, hábitos e costumes surgem e passam, seria outro exemplo.

A já batida frase de que "a única coisa permanente hoje é a mudança" começa até a ficar superada por conta de sua própria compreensão; quando se diz que a inovação é a moeda de troca da sociedade atual, está dito nas entrelinhas que não existe mais processo de mudança, existe apenas mudança. Não se muda mais de uma "velha ordem" para uma "nova ordem", apenas se faz o câmbio, sem oportunidade de usufruto da troca. Como na época da hiperinflação brasileira onde a moeda tinha diferentes valores durante um mesmo dia (não tendo valor fixo ou absoluto) hoje a tecnologia, hábitos e valores mudam mas sem data de validade ou prazo de uso. Muda-se para se mudar de novo, pois o tempo associado às coisas a nossa volta é por demais curto para ser vivido, mas longo o suficiente para ser consumido.

Esse estado de coisas se explica de algumas maneiras: uma sociedade (ocidental) baseada no consumo tem de ser sustentada não pelo econômico (atividades baseadas no trabalho, que geram valor ao longo do seu ciclo de produção, distribuição e consumo natural) mas sim pelo financeiro.
O financeiro é um sistema que se baseia na percepção de que algo possui valor, não o valor material ou real. O financeiro permite um progresso mais rápido do que o econômico, por isso o consumo se apóia no financeiro. É fácil compreender isso: a economia está para o almoço à la carte assim como o financeiro está para o fast-food. Você pode mobiliar sua casa muito mais facilmente através de um crediário (financiamento) do que juntando o valor e pagando à vista.

Esse estado de coisas faz com que as relações materiais sejam rápidas, assim como as relações com a comunicação de massa (jornais tablóides), entretenimento (videoclipe), relações pessoais (o famoso "ficar")... Tudo acaba se nivelando pela rapidez e superficialidade que tem na tecnologia seu maior ícone: a internet; ela é o melhor exemplo do estado de liquidez ou fluidez nossas relações sociais. Na internet tudo é rápido, sucinto, raso, e de baixa qualidade (a informação tem de ser assim nessa mídia para ser transmitida na velocidade esperada).

Posto este quadro, observamos que as relações sociais passaram por uma transição: de um caráter sólido (econômico) passaram para um estado flexível até chegar ao estado atual: líquido (ou financeiro), onde todas as coisas são extremamente mutáveis, fluidas de difícil retenção (aliás a idéia de "retenção" não é desejável, pois isso significa menor relação de troca ou consumo).

A próxima etapa parece ser a sublimação. As relações passarão a ser mais que fluidas, serão gasosas - as relações não serão percebidas como tais, de tão diluídas neste novo status quo. Ou passarão de um estado "sólido" (concreto, facilmente identificável) para um estado gasoso (de difícil identificação) como pressupõe a sublimação. Algo como o filme Matrix, onde uma nova realidade se sobrepõe a "realidade concreta" de modo tão convincente que não mais se percebe - nem importa - o que é real ou concreto.

Quando os malefícios do cigarro não eram tão conhecidos pela população mundial através da mídia, havia uma relação semelhante a essa com o tabagismo. Havia uma aura de sofisticação criada pela publicidade em relação ao tabagismo, que criou uma realidade artificial, invisível, em relação ao ato de fumar. Esse caráter "gasoso" da relação da indústria do fumo e seus consumidores foi desfeito, paadoxalmente, com as mesmas armas que construíram esse mito: com a velocidade da mídia.

A mídia, como a tecnologia, não é boa nem má, sua capacidade de construir ou destruir está na sua apropriação ou uso.

...

O supermercado nos ensina muito sobre economia, doméstica ou não. Eu costumo comprar um determinado produto no supermercado, mas somente até um determinado patamar (R$3,00). Espero o mercado oferecer o produto com esse valor ou pesquiso em outros supermercados até encontrar neste valor.
Isso me indica que o valor de R$3,00 é um valor "justo" para algumas marcas menos famosas, e que
- valor acima disto é o valor pago pela classe A ou compradores eventuais, que não discutem preço.
- quando o produto encalha ou se aproxima da data de validade, ele passa a ser vendido a esse valor, que deve girar em torno do preço de custo.
- a diferença - ausência de lucro na "venda promocional" - acaba sendo paga pela classe A ou comprador eventual.
- o "encalhe" não deve ultrapassar 50% do produto adquirido, para que a venda inicial compense o "prejuízo" do valor promocional.

Posso aplicar esses conceitos em casa, aproveitando partes de frutas, legumes e verduras que normalmente são jogados fora para preparar outros pratos (doce de casca de laranja, por exemplo) ou indo à feira no final da tarde (quando os preços estão mas baixos).

...

Ninguém está satisfeito. Se trabalha na iniciativa privada, reclama do estresse , pouca valorização e salário baixo; se é autônomo reclama da instabilidade; se é funcionário público, reclama da falta de infra para trabalhar (além do baixo reconhecimento social). Difícil é ver o outro lado da moeda: direitos trabalhistas e benefícios (plano de saúde, p.ex); flexibilidade para atravessar qualquer instabilidade financeira e profissional; estabilidade e possibilidade de planejar o futuro.

Mas como disse o presidente Lula, "até na casa do presidente da república as coisas faltam".

Ninguém está satisfeito mesmo.

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