31 de dezembro de 2006

Minha “Teoria da Conspiração”

Pensei muito antes de postar este texto, mas já disse e repito que não tenho “rabo preso” e tenho personalidade forte o suficiente para falar o que penso, então vou tentar passar MEU ponto de vista que é resultado da minha experiência como técnico, professor, empresário, coordenador de cursos, prestador de serviços, viciado em informação, “blogueiro” e principalmente como cliente que é o lado mais forte da corda, mas é sempre esquecido…

Em meu blog, no post “Eu odeio técnicos! E você?“, feito em 27/12/2006, dei a entender que sou contra a criação dos “Conselhos de Informática”, e muita gente está me perguntando por que. Já vi muita gente a favor, poucas contra, mas até agora poucos me justificaram exatamente por que. Alguns sequer sabem para que isso serve, apesar de defender sua opinião contra ou a favor com unhas e dentes. Tem gente que quer deixar de falar comigo porque sou contra! Mas perguntei por que é a favor, e não sabe! Não querendo “puxar o bacalhau” pro meu lado, notei que os que são contra a idéia na forma em que ela está são os mais esclarecidos e os que dão os melhores motivos.

Não sou contra a normalização de nossa área, sou contra a forma como as coisas estão sendo feitas. Tento acompanhar o desenrolar destes processos mas o assunto parece meio nebuloso. Por que os detalhes sobre algo de tamanha importância para a área não são de conhecimento geral? Alguém aí foi consultado sobre estes “Conselhos de Informática”? Pesquisei com vários colegas e, assim como eu, nenhum foi… Além disso, temos o melhor regulamentador de todos; aquele do qual sempre nos esquecemos, aquele que filtra os ruins do mercado, aquele que indica e sustenta os bons: alguém já ouviu a opinião do “senhor de todos os mercados”, o cliente?

Acho que a informática no Brasil ainda não está madura o suficiente para conselhos e regulamentações rígidas. A maioria dos profissionais TI são flexíveis demais nas suas profissões e isso exigiria regras muito bem construídas e negociadas com a classe e não escritas pelos empresários e votadas em uma assembléia legislativa. O fruto deveria nascer de nossas idéias e necessidades, e não da caneta de um político que quer aparecer bem na TV e de grandes empresários que querem tabelar e arrochar ainda mais nossos salários e limitar nossos serviços.

Eu por exemplo, não tenho formação em informática! Tenho curso técnico em eletrônica, pós-técnico em eletrônica digital/microprocessadores e curso superior de matemática, o que não tem muito a ver com a área, mas mesmo assim dou aulas de hardware, redes, Linux, HTML, PHP e banco de dados, construo, mantenho e escrevo para sites, dou palestras sobre redes WiFi e mercado de TI, projeto e administro redes, dou suporte em TI para grandes clientes inclusive Exército e Aeronáutica e faço muitas outras coisas na área de TI.

Resumindo: no papel eu não sou nada em TI! Estou na área pelo meu intelecto e esforço próprio, mesmo assim sou reconhecido e respeitado e conheço várias dezenas de profissionais na mesma situação: programadores que consertam micros, técnicos de telefonia que constroem sites, químicos que tem empresas de TI… É gente que fez e faz da informática no Brasil o que ela é. Profissionais que são até mesmo “contrabandeados” para o exterior por multinacionais, por causa da sua capacidade, conhecimento, criatividade e versatilidade. Até nomes conhecidos como Carlos Morimoto, Gabriel Torres e cia. se encaixam nessas condições. E os webdesigners, webdevelopers, webmasters e todo o pessoal de web…

Como todo esse pessoal se encaixa nesta regulamentação? Será que os regulamentos tratarão de todos esses profissionais como merecem? Ou seremos tratados da mesma forma que os motoristas de vans e Kombis (explicarei abaixo) que é o que acontece nos conselhos existentes por aí! Ou você já viu advogado ou enfermeiro autodidata? Algum técnico autodidata tem carteirinha do CREA/CONFEA?

Mais um pouco de “Teoria da Conspiração”? Querem criar conselho de informática. Informática? Que coisa velha? Somos profissionais de TI ou Tecnologia da Informação. Informática é coisa de computador, já TI engloba também web, telefonia, diversão eletrônica, automação industrial, eletrônica embarcada , redes sem fio, rádio TV digital, telecomunicações, sistemas de segurança digitais e muitas outras áreas. Já ouviram falar de “convergência”? Pelo nome que querem dar ao conselho, esses senhores demonstram que, ou estão por fora da realidade ou são bem espertos porque uma denominação restrita dá margem a criação de conselhos e órgãos diferentes para cada uma dessas subáreas, limitando ainda mais nosso trabalho e aumentando nossas propinas contribuições…

O problema não está na instituição, mas nas pessoas. Sem querer generalizar, mas pra começar, os gestores dessas instituições nem sempre são técnicos ou profissionais que exercem a profissão ou estão na área há bastante tempo. Já vi gente fazendo curso técnico e/ou faculdade só para arrumar um cargo de confiança pois um parente é gestor da instituição. Muitos gestores são políticos ou tem relacionamento direto com políticos e usam a instituição com objetivos políticos; ou são grandes empresários que prestam serviços principalmente ao governo e querem evitar a concorrência dos pequenos. Mais uma vez, não quero generalizar, tem muita gente correta no meio, mas eles acabam sendo oprimidos ou migrando para “o lado negro”…

Conheço, já interagi e interajo com diversos conselhos e instituições regulamentadoras e o que se vê é mais “politicagem” do que trabalho sério em prol dos profissionais, principalmente os pequenos empreendedores e freelancers… Autodidatas não existem para essa gente! São “clandestinos”!

A casos em que chega-se ao absurdo de um técnico free não poder exercer a profissão em São Paulo por exemplo, porque é cadastrado no conselho do Rio de Janeiro, a não ser, é lógico que se pague uma “pequena taxa” adicional por uma autorização temporária…

Vivemos em uns pais de regulamentos que são cumpridos por uma parte que acaba sendo abafada pelo restante que não segue os regulamentos. Exemplos? Vemos isso nas ruas todos os dias com as Kombis e Vãs clandestinamente e muitas vezes criminosamente competindo com as empresas de ônibus. Essas, por sua vez, têm veículos sucateados, sujos e antigos já que são obrigadas a seguir as regras, e quando não o fazem…

Há tanta coisa a se fazer. Porque esses caras não resolvem o problema dos SPAMs, da pirataria, da pedofilia na web, dos subempregos? Não interessa! Não aparecem na TV por isso! Mas aparecem quando querem distribuir notebooks de US$100 pros estudantes pobres que sequer tem merenda; quando querem que cada usuário dê sua identidade, CFP, comprovante de residência e “teste do pezinho” quando quiserem acessar a Internet; quando querem tirar o “Orkut” do ar porque todos que o usam são pedófilos, nazistas e traficantes e o Google tem muito dinheiro. Prender o pedófilo não dá audiência, mas fechar o Orkut dá!

Eles só aparecem no noticiário quando a Microsoft faz merchandising na novela da Globo para colocar o lixão do “Windows Starter Edition” no PC popular e “acabar com a pirataria”. Quando o governo dá isenção de impostos para grandes contrabandistas chineses fazerem PCs ruins porém baratos e como o caixa diminui cobra mais impostos dos pequenos montadores que então são obrigados a contrabandear também e por isso são chamados de clonadores e piratas…

Quem não está entendendo o que escrevo está pobre de informação porque isso é tudo notícia velha!

Quando exercia outra profissão, isso foi no século passado, me juntei a um grupo cujo objetivo era melhorar nossas condições e relações de trabalho com os patrões que haviam acabado de criar um cartel uma associação patronal. Fomos então negociar e buscar apoio de nosso órgão de classe (na verdade não é nosso e sim nos é imposto). Ouvimos de um gestor de alto cargo do tal órgão uma citação que não cabe aqui repetir, mas ele se fez entender que manda naquele setor do governo, no estado, na prefeitura e nas médias e grandes empresas, já que só ele pode aprovar que o governador, o prefeito ou essas empresas contratem tais profissionais ou realizem tais obras…

Esse foi “um dos” motivos que me fizeram sair da empresa em que trabalhava rasgar minha inútil carteirinha da classe e até largar completamente a profissão, me dedicando à informática.

Terei que largar a informática também? Existe algum conselho regulamentador para sapatarias?

Sobre (des)regulamentação, um bom exemplo para comparação é a telefonia. As operadoras de telefonia fixa são submetidas a regras complexas e difíceis de cumprir. Como resultado praticamente não existe concorrência, pois apenas uma empresa é capaz de cumprir tais regras, quando cumpre. O que temos então? Tarifas altas, abusos contra o consumidor, cobranças indevidas e serviços ruins. “A operadora” (no singular) da nossa região é líder em reclamações no Procon. Cansado de reclamar? Então procure a concorrência…

Agora, olhe a telefonia móvel! Setores parecidos, mas pelo fato de ser bastante desregulamentada e com regras muito flexíveis, a nossa telefonia móvel é uma das mais baratas, eficientes, modernas e competitivas do mundo. Hoje você troca de operadora como se troca de sapatos, um celular custa menos do que um par de óculos e se fazem ligações mais baratas do que pelo telefone fixo…

Mais exemplos? Se você pretende fazer um curso técnico de enfermagem, precisa fazer estágio em um hospital para receber o certificado, certo? Mas para fazer estágio em uma lixeira de hospital público a escola tem que pagar ao hospital. Isso mesmo! É necessário pagar para prestar um serviço em hospitais onde ha falta pessoal e alguns hospitais ainda exigem que o estagiário leve suas próprias luvas, máscaras, tocas, etc. Enquanto que a maioria dos estagiários hoje chega a receber dois salários mínimos ou mais em algumas empresas, os futuros auxiliares de enfermagem pagam… Pior que isso é uma norma estabelecida pelo respectivo conselho regional da classe, o COREN.

Adivinha quem são os gestores deste conselho? Não sei, mas tenho certeza de que não são auxiliares de enfermagem…

Até hoje acho estranho o porque do CREA do Rio de Janeiro não aceita fazer o registro profissional de técnicos em informática recém formados. Eles só aceitam os de eletrônica e para burlar as regras, alguns cursos estão mudando o nome do curso de “Técnico em Informática” para “Técnico em Eletrônica com Ênfase na Informática”. Adianta? Não parece que há grandes interesse envolvidos nisso? Não seria a criação do CRIN um deles?

Já falei pacas, esse é o maior, mais editado e mais polêmico post que já fiz e tenho muito mais para falar, mas estou com sono. Talvez fale mais depois…

Sinceramente, como isso tem muitos objetivos políticos, empresariais e pessoais por trás, acho que não há como evitar a criação destes conselhos; concordemos com eles ou não, eles virão. Apenas gostaria muito que tudo fosse feito da forma certa, por pessoas corretas e com objetivos nobres…

Antes que “parem de falar comigo”, reforço mais uma vez que este é o meu ponto de vista e dei argumentos suficientes para justificá-lo. Também preferi publicar no blog e não na forma de artigo para reforçar que isso é uma opinião pessoal. De qualquer forma, comentem e usem nosso fórum pra trocar idéias sobre este e outros assuntos…

Esse texto é uma opinião pessoal. Respeite-a, assim como gostaria que a sua fosse respeitada. Antes de comentar besteiras, pelo menos tenha a competência e dignidade de ler todo o post…

Nota: desculpem o excesso de reticências (…), mas acho que para um bom entendedor, meias palavras bastam...

1 comentários neste post

Comentário de
Anônimo Em 24 de fevereiro de 2013 12:21.

Acho que a regulamentação existe em áreas onde o impacto na vida da maioria das pessoas é grande. Se estão propondo é porque existe alguma demanda para tal. Espaço para pessoas não-formadas ou que trabalham na informalidade sempre existirá. Não acredito que uma regulamentação mude o mundo.

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