3 de junho de 2006

Os dois lados da moeda

Aproveito o privilégio de ser o “dono” deste site e talvez esteja usando essas linhas como mais um desabafo, mais um protesto como muitos outros que se vêem por aí. Mas escrevo com a propriedade de estar nos “dois lados da moeda”. Então, vou fazer uma crítica e forçar mais uma reflexão sobre o papel do educador na sociedade e nas instituições de ensino modernas e também registrar uma “mea-culpa”.

Nesta semana participei de mais um encontro administrativo na instituição de ensino para a qual dedico 60% da minha vida social e 100% da minha vida profissional durante a semana, como docente, coordenador, suporte técnico, quebra galho, “slave”, ouvido de penico, bucha-de-canhão, etc. Uma das maiores e melhores instituições de ensino profissionalizante do país, de renome internacional e que se auto-intitula, não como uma escola, mas como uma “Sociedade do Conhecimento”.

As grandes idéias de sempre foram abordadas: como vender melhor, como cativar o cliente, como manter o cliente fiel à empresa, como atender o cliente… Mais de 4 horas de encontro, com café da manhã, almoço, conversas, troca de idéias, dinâmicas, salva de palmas e tudo que deve acontecer em um encontro deste tipo, e conduzido por um excelente palestrante que, diga-se de passagem, tem o dom de cativar os participantes e passar suas idéias com muita eficiência. Tudo com um único objetivo: o cliente como aquele que compra os serviços da instituição.

Num determinado momento do encontro, o condutor decide que poderíamos assistir alguns capítulos de um vídeo de um famoso palestrante, o Professor Marins. Para mim ficou um ar de “Déjà vu”, pois sou grande admirador do Professor Marins e já assisti muitos de seus vídeos, e esse é um dos mais famosos.

Eis então que o vídeo é interrompido, antes de um dos capítulos que mais gosto, justamente o que fala do “cliente interno”, do responsável pela “atividade fim”, de quem é na minha leiga visão, o mais forte pilar de sustentação de uma instituição de ensino depois dos alunos (lá chamamos friamente de cliente).

A sensação de incomodo foi enorme para mim. Eu que tenho o privilégio de participar da área administrativa da escola e também como professor (lá chamamos friamente de docente). Eu que sempre disse ao meu antecessor que, se um dia estivesse ali em seu lugar, lutaria para ter os professores plenamente reconhecidos dentro da instituição como “agentes fim”, respeitados e não apenas “responsabilizados” como tal.

Lamentavelmente, em nenhum momento sequer foram citadas as palavras “docente”, “professor”, “agente educador” ou qualquer outro termo “modernoso” que se referenciasse a profissão que escolhi aplicar todos os meus conhecimentos e capacidades.

Fiquei com a sensação de participar de uma religião onde se visa apenas captar novos fiéis e aumentar suas ofertas, e que não oferece reverências a seus mortos.

Vejo todos os dias, tratarem os docentes como um mau necessário, como alguém que “esquece” de assinar seu recibo de pagamento porque não precisa de dinheiro. Que tem que manter o cliente em sala de aula (lá, chamamos friamente de "Ambiente de Aprendizagem") e gasta muito “Piloto” escrevendo no quadro, aumentando as despesas da instituição com material didático. Que é um chato porque todo início de mês reclama na administração que seu pagamento não foi corretamente efetuado.

Ninguém tem a humildade de presumir que ele esqueceu de assinar o recibo porque não pode chegar atrasado na outra escola onde vai dar mais 4 horas de aula daqui a meia hora, do outro lado da cidade. Que conhece os alunos pelo nome e não por um número em uma pasta ou computador; que ouve e compartilha suas alegrias, tristezas, frustrações, problemas, etc…

Que tem que usar um “Piloto” gasto, que após umas sacudidas só escreve três linhas de cada vez sobre um quadro todo arranhado. E ainda tem que ouvir as reclamações dos alunos de que está difícil de enxergar e defender a instituição com unhas e dentes.

Que ganha “uma merreca” por tudo isso; não tem estabilidade, carteira assinada, 13º, férias. Não tem o direito de reclamar e ainda ouve que se reclamar mais, vai ficar sem pagamento.

É frustrante. Espero que o próximo encontro seja mais proveitoso. Afinal, a esperança é a última que morre…

“- Vamos reverenciar nossos mortos?”

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