29 de outubro de 2005

Design educacional

"Problemas são oportunidades de desenvolvimento disfarçadas em contratempos" (1)

"Existem mais coisas entre a cadeira e o teclado do que sonha a nossa vã sabedoria" (2)


A primeira frase é do meu ex-sócio, (uma releitura de frase famosa) e sintetiza uma verdade: problemas - ou tarefas a serem resolvidas - são uma escola de aprendizado. A segunda é uma brincadeira minha em cima de uma outra frase muito conhecida, de Shakespeare, e que ilustra porque qualquer atividade que lide com pessoas e computadores é uma arte, uma ciência não exata.

Já me aconteceu de ter de ministrar um mesmo treinamento dentro da empresa que trabalho, em unidades muito diferentes e distantes. A pesar do conteúdo ser, teoricamente o mesmo, o ambiente mudava radicalmente: num local, o Windows era a versão 98, noutro, o XP, e num terceiro o 2000. O público também mudava: ora eram adolescentes, ora adultos, noutro momento, os já citados com a terceira idade. Nem vou falar dos computadores, pois aí vou ter de explicar o que é dar a mesma aula com computadores com 64MB de RAM de manhã e 256 à noite (!). Incompatibilidade total de hardware, software e peopleware. A aula, e você tem de fluir do mesmo modo - perfeitos. Uma outra história, embora muito semelhante foi uma turma com brasileiros, equatorianos e americanos (!). Com freqüência tinha de me expressar em português, inglês e castelhano (!!).

A teoria de Darwin diz que quem sobrevive não é o mais forte nem o mais esperto, e sim o mais adaptado. Nesse sentido, faz todo o sentido o fato de ter de adaptar o conteúdo (aula) ao contexto (ambiente).

É uma coisa meio esquizofrênica ter de dar aula de 3 versões de um mesmo software no mesmo dia (e lembrar das diferenças entre elas enquanto explica!) assim como ter de falar para um público que se comunica essencialmente usando o MSN Messenger, celular e o telefone convencional (sem secretária eletrônica, note bem!) mas é necessário. Pensar o contrário é reduzir seu faturamento no final do mês. Mas alguém tem de cuidar dos aspectos ligados a educação em contextos variados fora do âmbito do autodidatismo, experimentalismo ou aptidão pessoal. O Design pode contribuir nesse ramo da atividade humana, assim como colabora em 99% dos ramos de nossa vida. Me diga uma atividade humana ou um ramo de nossas vidas onde o design não está presente. Se você falou matemática ou filosofia, até uma proposta teórica se for adequadamente comunicada tem maiores chances de ser melhor absorvida pelo seu público-alvo. Um exemplo, na faculdade que estudei, um software de desenho em 3D é usado para ensinar conceitos de física, além de ajudar a elaborar projetos de design. Design pode não ser tudo, mas está em tudo. Ou pode estar.

Na área de educação não é diferente. Como cita Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida professora e doutora em educação da PUC/SP, "- Ensinar em ambientes digitais e interativos de aprendizagem significa: organizar situações de aprendizagem, planejar e propor atividades; disponibilizar materiais de apoio com o uso de múltiplas mídias e linguagens; ter um professor que atue como mediador e orientador do aluno, procurando identificar suas representações de pensamento; fornecer informações relevantes, incentivar a busca de distintas fontes de informações e a realização de experimentações; provocar a reflexão sobre processos e produtos; favorecer a formalização de conceitos; propiciar a interaprendizagem e a aprendizagem significativa do aluno".

Um material didático pode e deve ser distribuído em diversas mídias (papel, internet, cd-rom, e-book), facilitando a comunicação entre o aluno e a instituição de ensino. Um ambiente de trabalho complexo pode ser administrado com base na ação de uma pessoa que o conheça a fundo, mas... e quando essa pessoa está ausente? Também pode ser mapeado através de informações dispostas adequadamente no ambiente (cartazes, manuais, qualquer material de conhecimento explícito). A internet pode ser usada como veículo de comunicação entre pessoas que atuando numa mesma atividade educativa (aí entram os grupos de discussão, comunidades on-line, etc). Não preciso dizer que o design está em todas estas situações. Mas design sozinho não orienta, não informa (embora comunique) não creia diretrizes.

Neste momento entramos numa área que passeia entre a tecnologia e a gestão do conhecimento. A tecnologia se ocupa de viabilizar e resolver determinadas tarefas ou necessidades, a gestão se ocuparia de como realizar determinados processos com maior eficiência (daí porque relacionamos com propriedade tecnologia com ferramentas e gestão com práticas. Até porque não se implementa um software na hora de se definir normas de conduta num ambiente de trabalho).

O design educacional seria uma atividade multidisciplinar, que congregaria diversas ferramentas e práticas com o fim de agregar valor a atividade educacional (passando inclusive pela inovação, ao criar novas soluções que resolvam novas demandas ou questões educacionais), organizar processos (porque em meu trabalho as coisas são feitas de maneiras diferentes num mesmo prédio se a empresa é a mesma?) e facilitando em última análise a comunicação entre as partes envolvidas (aluno, empresa educacional e funcionários).

Você pode imaginar design educacional quando define uma série de procedimentos para que um ambiente de aprendizagem (sala de aula) funcione e as sessões de aprendizagem (aula) fluam igual, independente do público e docente.

Design educacional pode existir quando se produz material didático que vá de encontro aos desejos da clientela, seja na apresentação, distribuição ou concepção. Um material didático pode ser uma apostila impressa, um site na web... e este se desdobra em materiais para didáticos, como apresentações de slides, endereços interessantes na web que complementem o que está sendo ensinado, CD-ROMs, vídeos. A pesquisa e elaboração deste conteúdo necessariamente tem de passar pelo design. Ninguém fica lendo um slide com letras miúdas e em cores claras muito tempo.

Design educacional na verdade existe quando a empresa compreende que design é uma ferramenta tão importante no seu dia-a-dia como o mobiliário, a propaganda, funcionários bem treinados... ou seja, que faz parte de um conjunto essencial. Mais ou menos como fazer uma série de reuniões longas com sua equipe e ter sempre disponível o conforto de uma jarra de café (ou suco) e singelos biscoitinhos para sustentar um saco vazio que precisa ficar em pé. São coisas sutis mas que acabam passando batido em muitos ambientes corporativos ou educacionais, mas que acabam fazendo a diferença ao motivar o interesse de quem vai de fato manter a equipe motivada (cliente externo = alunos; ou interno = funcionários). E a receita no azul, no final do mês.

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1) "Problemas são oportunidades disfarçadas de trabalho";
2) "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".

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